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O ano de 2021, que a exemplo do anterior nos colocou diante de duras provações, chega ao fim. Num balanço rápido entre ganhos e perdas, se tratou de um cenário dúbio. Ao mesmo tempo em que alcançamos patamares altíssimos de óbitos por conta da pandemia, de desemprego e de constantes sabotagens oficiais para com a saúde pública e a proteção da vida, também tivemos acesso às vacinas, uma certa retomada das atividades econômicas e um suspiro de dias melhores mais adiante.

Mas por ser um incorrigível esperançoso, que credito aos ensinamentos que a vida me deu, procuro olhar para frente, avançar, o que não significa ignorar os percalços e as dores sofridas pela maioria da nossa população. Isso, inclusive, faz parte das lições e exemplos do que precisamos fazer, descartar, buscar e acreditar enquanto nação.

E é neste sentido que comemoro fortemente a notícia recebida na última terça-feira, 28, de que, finalmente, depois de sete longos meses de idas e vindas e insegurança na sociedade e junto a inúmeros profissionais da saúde, o governo do estado assinou um convênio com a nossa Universidade Federal (UFSM) que irá garantir a manutenção e o pleno funcionamento do Hemocentro Regional de Santa Maria.

Assim como os ganhos de 2021 foram frutos da organização e mobilização de diversos atores públicos e privados, que cerraram fileiras e serviram de anteparo às posturas governamentais negacionistas na pandemia, a formalização do convênio entre a Secretaria Estadual da Saúde (SES) e o Hospital Universitário da UFSM foi resultado do entendimento de que sozinhos podemos pouco, mas unidos num mesmo objetivo experimentamos um somatório de pequenas forças difícil de ser menosprezado, ignorado.

Desde que começou a circular nos meios políticos e dos que militam pela causa da defesa da saúde pública, em maio passado, a informação de que existia a perspectiva de fechamento ou redução dos serviços prestados pelo Hemocentro Regional, cujas atividades, por economia de recursos, seriam repassadas a entidades que não detinham capacidade técnica para dar conta de tamanha responsabilidade, começamos uma mobilização que encontrou eco nos mais diferentes segmentos sociais.

Apesar das negativas oficiais de que existia um plano neste sentido, os sinais, assim como o comportamento de alguns gestores, incluindo reuniões com os próprios servidores da unidade, troca de emails, falta de sintonia do governo com o Hemorgs (Hemocentro do Estado do Rio Grande do Sul, vinculado à SES), entre outros, eram claros: se não houvesse uma convergência da sociedade civil para barrar a ação em curso, o Hemocentro seria descaracterizado, fatiado, esvaziado. Desde então, com muitas mãos e muitas vozes, se começou uma campanha  sobre a importância para a Região Centro do estado da permanência e manutenção do Hemocentro em Santa Maria.

A cada quarta-feira, levávamos o tema para a Comissão de Saúde e de Meio Ambiente (CSMA) da Assembleia Legislativa, onde entidades da sociedade civil buscaram chamar a atenção do Ministério Público Estadual, da Câmara de Vereadores do município e da imprensa. De forma plural e coletiva, inúmeras reuniões foram realizadas, assim como audiências públicas e pedidos de informações junto à SES.

O entendimento era de que sem a devida pressão e esclarecimento público estaríamos fadados a um enorme retrocesso. E não somente a Santa Maria, mas a toda região, pois o Hemocentro hoje atende 14 hospitais, cuja abrangência alcança 39 outras localidades em termos de fornecimento de hemoderivados e realização de provas imunohematológicas. Mas, apesar de longos silêncios da gestão estadual em diversos momentos, deu certo.

Essa conquista, um verdadeiro presente de final de ano às populações de Santa Maria e de dezenas de municípios do entorno, se deveu ao empenho e compromisso de muitas pessoas, entre elas os servidores públicos e terceirizados da unidade, que prestam um serviço de excelência e que estavam preocupados e apreensivos com o futuro do complexo de saúde, ao ex-reitor da UFSM, Paulo Burmann, que recém deixou o cargo e cujo empenho foi exemplar, além da dedicação do corpo técnico e funcionários do Hospital Universitário e à mobilização de inúmeros homens e mulheres, principalmente pais e mães que dependem do Hemocentro para o tratamento de seus filhos.

Encerramos 2021 com a vitória daqueles que cerraram fileiras por acreditarem que cuidar da vida não é meramente custo, mas investimento. Uma vitória feita de gente de carne e osso, para quem os hemocentros, assim como a ciência e as vacinas, têm papel relevante e estratégico em qualquer política pública digna desse nome. Uma vitória que mostrou que argumentos economicistas não podem se sobrepor à importância da vida. 

E esse compromisso, continuaremos a ter em 2022.

*Deputado Estadual